Primeira edição do FLIPARACATU centrou atenções em “Direitos Humanos, Origens e Respeito”

"Nós conseguimos trazer a Paracatu os mais interessantes escritores e escritoras negros, brancos, indígenas para falar sobre ancestralidade, sobre Candido Portinari e, ainda, mais do que isso: falar o que o Brasil deve enfrentar daqui pra frente, que é a questão do racismo, que deve ser enfrentado e vencido, sentimento que foi expressado nas diversas palestras que foram feitas aqui”, disse Afonso Borges, idealizador e curador presidente do Fliparacatu

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Foto: Ranch Films
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A edição inaugural do Festival Literário Internacional de Paracatu – Fliparacatu – encerrou-se no domingo (27/8), instigando o pensamento crítico e o conhecimento acerca de temas norteados pela ancestralidade, arte e literatura e o seus correlatos, como direitos humanos, liberdade, democracia, respeito e combate ao racismo. Nos cinco dias de evento, cerca de 70 escritores participaram de mesas de debates, sendo 30 por cento desses convidados negros, incluindo a Autora Homenageada Conceição Evaristo, e as premiadas Livia Sant’Anna Vaz e Eliana Alvez Cruz. O Festival aconteceu no Centro Histórico da cidade e reuniu representantes da literatura brasileira e lusófona, sendo Autor Homenageado o moçambicano Mia Couto. O público que retirou ingressos antecipados pela plataforma digital para assistir à programação soma 8 mil pessoas. E estima-se que o público que passou pelo evento seja de 24 mil pessoas.

O Festival Literário Internacional de Paracatu é patrocinado pela Kinross, via Lei Rouanet do Ministério da Cultura, e com o apoio da Prefeitura Municipal de Paracatu, da Paróquia de Santo Antônio e do Projeto Portinari. Com a curadoria de Tom Farias, Sérgio Abranches e Afonso Borges, sua primeira edição aconteceu entre os dias 23 e 27 de agosto de 2023.

O idealizador e curador presidente do Fliparacatu, Afonso Borges, adianta que fazer um balanço do Festival, agora, é muito difícil. Isso porque o impacto foi muito grande:

“A cidade tem 600 imóveis tombados pelo Iphan – Instituto Patrimônio Histórico e Artístico Nacional –, é um presépio do século XIX, onde o Centro Histórico reúne todas as condições para realizar eventos culturais de grande porte. Nós conseguimos trazer a Paracatu os mais interessantes escritores e escritoras negros, brancos, indígenas para falar sobre ancestralidade, sobre Candido Portinari e, ainda, mais do que isso: falar o que o Brasil deve enfrentar daqui pra frente, que é a questão do racismo, que deve ser enfrentado e vencido, sentimento que foi expressado nas diversas palestras que foram feitas aqui”. O curador ainda completa que “mais do que isso, penso que o enfrentamento ao racismo tem a ver com a desigualdade social, com a violência e com a democracia. E estes são temas que estão nas obras de autores e autoras que passaram por aqui, como Itamar Vieira Junior, Jeferson Tenório, Lívia Sant’Anna Vaz, Conceição Evaristo, Calila das Mercês, Eliana Alves Cruz, um grupo de escritores que traz a reflexão que o Brasil precisa trazer neste momento. É um novo Brasil, mas também são novas reflexões colocadas sobre pontos antigos, sobre pontos até ancestrais. Espero muito – e a população também – pelo próximo Fliparacatu”, diz Afonso Borges.

Para o curador Tom Farias, o Fliparacatu surge como uma forma de conhecimento, de conexão e de entretenimento:

“Penso que a semente foi plantada e com muita probabilidade de frutificar e dar uma grande árvore. A primeira edição de qualquer coisa é sempre experimental. Nós da curadoria ficamos com uma expectativa muito grande de como a população receberia uma programação desse porte, afinal, tivemos no Fliparacatu escritores não só nacionais, mas estrangeiros também. Temos a Conceição Evaristo, que é nossa grande Autora Homenageada, juntamente com Mia Couto. Isso provocou frisson em todos nós, mas vejo que conseguimos entregar alguma coisa, e que a população também soube receber. É uma cidade acolhedora, com um coração imenso que nos abre para novas oportunidades, e o Fliparacatu é uma oportunidade de entretenimento, de conhecimento, de conexão. O Prêmio de Redação, entregue aos alunos das escolas públicas e privadas, também é uma forma de estimular a leitura, o contato com o livro e essa relação com autores que a gente só vê à distância, nos noticiários, na televisão. Tudo isso deu pra gente uma alegria enorme, e o que fica é esse gostinho de quero mais. O Festival já está acabando, mas a gente quer manter essa aura favorável à cultura e tudo mais que ela proporciona” – destaca Tom Farias, curador do Fliparacatu.

Acho que nós fomos muito felizes na escolha de Paracatu para realizar um festival literário porque encontramos um lugar muito receptivo. Escolhemos um tema pro Festival que contemplou todos os debates, pois todas as mesas tinham, de alguma forma, a ver com o tema da ancestralidade e o seus correlatos, como direitos humanos, liberdade, literatura. Desse ponto de vista, penso que a gente foi muito bem sucedido. Percebo que alguns autores sentiram acolhida tão boa que eles também ficaram mais soltos, mais livres, falaram de forma mais espontânea e por vezes enfática no que eles tinham pra dizer. O público reagiu, perguntou, e isso é excelente. A gente espera que os próximos festivais também sejam assim” – finaliza Sérgio Abranches.

Números refletem o êxito da primeira edição

Cerca de 8 mil pessoas retiraram seus ingressos antecipados pela plataforma digital e participaram das cerca de 96 atrações, dentre elas literárias, musicais e performáticas do Fliparacatu. Foram promovidos debates, palestras, oficinas, espetáculo de dança, batalhas de slam, sessões de autógrafos e atividades voltadas para todas as idades – a maioria no formato figital, abrangendo, assim, os ambientes físicos e digitais. Ressalta-se que os 36 debates da programação nacional e internacional foram transmitidos, ao vivo, durante a realização do evento e podem ser acessados no canal do YouTube do Fliparacatu mesmo após o término do Festival.

O tema da primeira edição do evento foi “Arte, Literatura e Ancestralidade”, temática que norteou a programação. Um exemplo concreto da fidelidade ao tema foi a mostra “Portinari Negro”, exposta desde maio na Praça da Matriz, no centro histórico de Paracatu. A exposição conta com 42 reproduções de obras de Candido Portinari que retratam a realidade de grande parte da população negra no Brasil à sua época, exibidas em estruturas de dois a três metros de altura, dando a ideia de museu a céu aberto. Para a exposição, as obras foram feitas em lonas impressas, com os arquivos fornecidos pelo Projeto Portinari, que, há 44 anos, cuida do acervo e da preservação da memória da vida e obra do pintor e busca não só atender a estudantes, pesquisadores e o público em geral, mas também democratizar o acesso ao legado pictórico, ético e humanista de Portinari.

Ciclo de Debates Virtuais

Assim como a exposição, o Sesc-SP e o Fliparacatu apresentaram o inédito Ciclo de Debates Virtuais “Portinari Negro – 12 x 120 anos”, no qual 12 especialistas negros discutiram, entre outros assuntos, a questão da identidade do pintor de “O Mestiço”. Essa programação especial surgiu como marco significativo, que rompeu com padrões estabelecidos e trazendo à luz a importância da representatividade e inclusão no âmbito das feiras literárias. O Ciclo de Debates Portinari Negro se destaca por sua abordagem inovadora e transformadora. Enquanto muitos eventos anteriormente concentraram suas atenções apenas em figuras já renomadas, que conseguiram superar inúmeras barreiras para alcançar destaque, este Ciclo quebrou essa tendência. Pela primeira vez, a atenção foi direcionada para doze indivíduos talentosos, capazes, trabalhadores e, acima de tudo, negros, que permaneceram invisíveis na sociedade por muito tempo. Todos os doze debates virtuais foram mediados pelo escritor Tom Farias e estão disponíveis no YouTube do Fliparacatu.

Neste ano, a programação do Fliparacatu foi diversa e diversificada, de modo que recebeu 69 escritores e escritoras, sendo negros, indígenas, brancos, compondo a programação com autores regionais, nacionais e internacionais. A proposta de englobar tamanha pluralidade permitiu que o Festival promovesse a representatividade, valor tão fundamental para a promoção cultural. Bem como a multiplicidade de participantes, a programação do evento contou com atividades que abrangeram diversos campos do universo literário, como literatura contemporânea, poesia, escrita feminina, literatura infantojuvenil, questões sociais, etc.

Fliparacatu contra o racismo

Nesta edição, o evento homenageou Conceição Evaristo e o escritor moçambicano Mia Couto. Além dos homenageados e de muito outros autores, estiveram em Paracatu autoras e autores como Itamar Vieira Junior, Eliana Alves Cruz, Jeferson Tenório, Márcia Kambeba, Tom Farias, Sérgio Abranches, Trudruá Dorico, Jamil Chade, Juliana Monteiro, Lívia Sant’Anna Vaz, Míriam Leitão e o angolano José-Manuel Diogo.

“A recepção do povo paracatuense foi muito forte e intensa. A relação com as pessoas que a gente encontrava por aí, conversando, abraçando, era muito forte. E acho que teve também o fato de que o conteúdo foi escolhido para abraçar a cidade. Quando a gente falou, insistentemente, em todos os painéis, sobre a questão racial, porque se sabe que esta é uma cidade que tem quilombos, que tem um percentual da população negra muito acima do que o resto do País, o que a gente quer dizer é o seguinte: o Brasil só vai ser grande mesmo quando forem derrubadas as barreiras entre negros e brancos. Teve essa linha condutora na defesa dos direitos humanos, da literatura, da inclusão racial, começando com a exposição “Portinari Negro”. O que nós queremos dizer é: o Fliparacatu tem potencial para continuar e espero que continue. Temos de encontrar juntos uma saída para esse problema que enfrentamos a vários séculos: a separação entre brasileiros de pele branca e de pele preta. Afinal, somos todos brasileiros” – diz Míriam Leitão, jornalista e autora convidada do Fliparacatu.

Prêmio de Redação do Fliparacatu

Vencedores do Prêmio de Redação junto a seus professores, aos autores convidados e às autoridades municipais (Foto: Ranch Films)

O Fliparacatu promoveu um Prêmio de Redação para os estudantes das escolas do município, públicas e particulares, dos ensinos Infantil, Fundamental e Médio, que contou com a adesão de 26 escolas. O tema escolhido para a concepção das redações foi o mesmo do Festival, “Arte, Literatura e Ancestralidade”. A inspiração para o concurso foi a mostra “Portinari Negro”. Essa conexão entre o Fliparacatu e o Prêmio fortaleceu a integração dos participantes e estimulou reflexões criativas e relevantes.

Vencedores do Prêmio de Redação junto a seus professores, aos autores convidados e às autoridades municipais (Foto: Ranch Films)
Vencedores do Prêmio de Redação junto a seus professores, aos autores convidados e às autoridades municipais (Foto: Ranch Films)

Estrutura e equipe

Foram mais de 10 mil horas trabalhadas pela equipe que permitiu que o primeiro Fliparacatu fosse um projeto possível: cerca de 100 pessoas atuaram nos bastidores do evento, seja direta ou indiretamente, incluindo equipes de montagem da estrutura, de web e imprensa, de audiovisual, segurança, carregamento e limpeza, produção e livraria. No total, o Festival ocupou 640 metros, sendo 260 destes destinados à livraria, o coração de todo festival literário. O espaço contou com mais de 16 mil exemplares de mais de 5 mil títulos literários, que englobam os mais diversos gêneros – romance, aventura, poesia, terror, crônica, biografia, infantil e infantojuvenil. O Fliparacatu também compreendeu um palco para performances musicais e mais oito ambientes para debates, palestras, apresentações, sessões de autógrafos e lançamentos de livros. Para isso, foram destinados mais de 230 metros de impressão digital e 3.500 metros de revestimento no total.

Para dar forma à estrutura do Festival, duas carretas foram necessárias para transportar 53 toneladas de equipamentos. A equipe de construção, que contou com mais de quinze pessoas, se dedicou, por 18 dias, aos processos de montagem, operação e desmontagem. Tudo isso resulta em cerca de 2.160 horas trabalhadas. A dimensão desses números foi conferida ao longo dos cinco dias do Fliparacatu, que ficou completa com a presença do povo paracatuense e dos visitantes que se fizeram presentes e mergulharam no universo literário.

Feito pelo povo e para o povo Paracatuense, o Fliparacatu se encerra com a certeza de que incentivou o turismo cultural, valorizou a literatura e a história regional, de modo que gerou receita direta para o município e fortaleceu a imagem da cidade como um destino cultural e turístico. Não há dúvidas sobre isso, mesmo em se tratando da primeira edição do Festival. ■

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