Opinião: “Entre o Monge e o Escorpião”, por Marivia Brandão

"A primeira reflexão que aqui cabe é: como é normal desistirmos das boas atitudes quando recebemos a ingratidão como resposta!!!"

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Marivia Brandão é Consultora Internacional em Gestão
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Há um conto budista sobre um monge que, ao perceber um escorpião caído nas águas de um lago, pôs-se a socorrê-lo, resgatando-o por entre suas mãos. Entretanto, embora ileso, o escorpião não hesitou em atacar com uma dolorida picada quem lhe havia salvado a vida.

Ao sentir uma profunda dor provocada pelo ferrão, num ímpeto o monge derrubou o escorpião na água, onde ele novamente voltou a debater-se, em agonia. O monge, então, aproximou-lhe generosamente um galho, mais uma vez salvando o escorpião da morte.

O desfecho da estória ocorre com um diálogo entre o monge e seu discípulo, que o questiona sobre porque ele ter insistido em ajudar o animal, mesmo após ser atacado. Com sabedoria, o monge explicou-lhe que cada um só age conforme a sua própria natureza, que a do escorpião é a de atacar e a dele é a de ajudar.

Esse conto tornou-se conhecido ao ser associado ao comportamento humano, no que  se refere às relações com outros. Em nosso dia a dia, seja em ambientes pessoais ou profissionais, é possível identificar reações distintas das pessoas quando estão diante de situações que envolvem os demais.

Existem aquelas que ficam extremamente constrangidas, e até contrariadas, quando são beneficiadas por atitudes genuinamente bondosas. Reagem com raiva e falta de reconhecimento às boas ações que lhe são dirigidas. Talvez por reconhecerem a própria incapacidade de agirem da mesma forma, sentem-se inferiores e passam a “atacar” com ressentimento quem lhes ajuda. Ao invés de sentirem-se agradecidas pelo que receberam, tal como o escorpião do conto elas escolhem ter uma conduta agressiva, como uma forma de rebaixar a bondade alheia e, assim, torná-la mais suportável.

Porém, há aqueles que costumam agir de modo semelhante ao do monge, com maior autoconhecimento. A reação dele revela que conhece de si mesmo e respeita os valores que tem. Mesmo após ser agredido, continua a agir conforme suas próprias crenças e segue a ajudar. Ou seja, por pior que tenha sido a dor que o outro provocou, ele não desistiu de agir com a bondade e generosidade nele desenvolvidas.

A primeira reflexão que aqui cabe é: como é normal desistirmos das boas atitudes quando recebemos a ingratidão como resposta!!! É muito comum que se passe a julgar todos os demais pela má experiência que apenas um provocou. Uma só vivência negativa serve de motivação para se evitar fazer o bem. O mal encontra forte eco, como cantiga de grilo. Quem disse que é fácil ser o monge?

O texto também possibilita outra análise importante: o poder da empatia. Empatas desenvolvem a capacidade de colocar-se no lugar do outro, imaginando-lhes as dores e motivações, em busca de mais compreensão e aceitação. Quando o monge reconhece que a natureza daquele animal é atacar, ele demonstra ter percebido que essa era a limitação do outro e não a dele.

Vivemos num mundo de trocas e aprendizagem uns com os outros, disso não se pode fugir. Nascemos completamente dependentes, sendo essa a primeira grande lição na vida. Crescemos a partir das experiências que temos e, muitas vezes, pensamos que estamos a ajudar alguém, mas na verdade estamos favorecendo a nós mesmos, aprendendo junto.

Quem se preocupa com o fel que pode receber, não terá foco no mel que pode entregar ao mundo. Não sei se conseguiremos ter sempre atitudes compassivas como a do monge, mas torço para que não sejamos como o irracional escorpião, atacando com forte veneno todos que estão à volta e ferindo cada mão estendida. ■

Marivia Brandão

Consultora internacional em Gestão, Especialista em Relacionamento Empresa-Mercado, Mestre em Empreendedorismo e Criação de Empresas, Especialista em Desenvolvimento Humano, Formadora e Analista Sênior de Perfil Comportamental mariviasbrandao@gmail.com 

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