Opinião: “Aprender a Viver Juntos: O Desafio da Luso-Brasilidade em Portugal”, por João Morgado

"(...) embora possamos ser países amigos ou países irmãos, ainda assim, continuamos a ser dois países distintos. É bom não esquecer isso"

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João Morgado, presidente da Casa do Brasil – Terras de Cabral e escritor
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A Casa do Brasil – Terras de Cabral organizou no dia 7 de Setembro (Dia da Independência do Brasil), um seminário para discutir o impacto da migração brasileira em Portugal: “Brasil em Portugal – Integrar, Investir, Aprender.”

O termo “Aprender” suscitou algumas interrogações. A “integração” é tida como fundamental, e a importância do “Investimento” era óbvia, mas o que significaria, “Aprender”? Aprender o quê? Com quem?

Contudo, após um dia de discussões e reflexões, onde estiveram presentes várias entidades portuguesas e brasileiras, empresários, associações… a maior conclusão que se pode tirar é que estamos num urgente caminho de aprendizagem, numa jornada para aprendermos a viver juntos. Ou, tendo em conta, a nossa longa história comum, repleta de altos e baixos, eu diria que estamos a re-aprender a conviver.

O tema do seminário, “Brasil em Portugal,” destaca uma realidade marcante: a chegada massiva de brasileiros a um país relativamente pequeno e conservador como Portugal. Inevitavelmente, este fenómeno cria uma revolução social, económica e cultural. Como afirmou Karl Marx, “as revoluções são a locomotiva da história,” e são nestes momentos de transformação que quebramos barreiras e construímos novos paradigmas. É este o desafio actual – temos de aprender a conviver e a construir um futuro de coexistência pacífica (nem sempre fácil).

Sendo ligeiramente ‘politicamente incorrecto’, permitam-me lembrar que embora possamos ser países amigos ou países irmãos, ainda assim, continuamos a ser dois países distintos. É bom não esquecer isso.

Esta é a primeira barreira que precisamos superar para construir um novo paradigma. Habituado a viver a globalidade para fora, os portugueses devem compreender que a globalização trouxe agora o mundo para dentro de suas fronteiras. Portugal já não é exclusivamente dos portugueses, e, portanto, exige-se deles tolerância, entendimento, cooperação e respeito por quem chega.

Mas, por outro lado, os brasileiros também precisam perceber algo muito claro, Portugal não é o Brasil. Portugal possui uma cultura e história diferentes, exigindo uma mente aberta e forte adaptação. Aos brasileiros, exige-se o mesmo que aos portugueses: tolerância, entendimento, cooperação e respeito por quem está.

É isso que estamos a APRENDER, e é um processo essencial para o sucesso da luso-brasilidade em Portugal.

Uma questão notável levantada por George Bernard Shaw, que disse que os EUA e a Inglaterra eram “dois países separados pela mesma língua,” também se aplica a Portugal e ao Brasil. A língua comum dá uma falsa noção de facilidade.

Embora compartilhemos a língua, é ilusório pensar que somos iguais em tudo. Portugal é um país diferente, com sua própria identidade, assim como a França, a Alemanha, os Estados Unidos e outros. Possuímos uma língua comum, mas a nossa personalidade, a nossa cultura, organização política e socioeconómica, é diferente.

Não somos iguais, e, mais importante, não nos conhecemos tão bem quanto pensamos. Só o reconhecimento desta diferença, nos preparara para a superação dos desafios que persistem nesta relação. Não há plena integração sem conhecimento social e não há sucesso empresarial sem entendimento do meio ambiente económico, fiscal, legislativo…

Os brasileiros precisam de conhecer a fundo os portugueses, não os navegadores de 1500 ou os imigrantes dos anos 50 do século passado, mas os portugueses actuais, o Portugal do século XXI. É um povo diferente, é um país com uma nova cultura. Da mesma forma, os portugueses precisam de conhecer os brasileiros de hoje, compreendendo o novo perfil de emigrantes que está a chegar – mais estruturado familiarmente, mais culto, com poder económico e capacidade empreendedora. É também importante reconhecer a diversidade dentro do povo brasileiro, pois o Brasil é uma nação continental composta por ‘muitos povos’ de regiões bem diferentes entre si. É um repto desafiador, pois conciliar uma ideia única em Portugal pode levar a mal-entendidos e criar atritos.

Esta é a aprendizagem de parte a parte que é crucial para a verdadeira integração e o sucesso do investimento mútuo. Como Aristóteles disse, “é fazendo que se aprende a fazer aquilo que se deve aprender a fazer.” Aprendemos juntos, no nosso dia-a-dia, através do exemplo.

A Casa do Brasil – Terras de Cabral, na Beira Interior, reúne portugueses e brasileiros, evitando que se isolem. É uma espiral de abertura e partilha de visões, onde aprendemos juntos, não em separado. Com o número crescente de famílias brasileiras que estão a chegar a um Portugal envelhecido, com os novos nascimentos, em breve seremos um povo hibrido, onde teremos uma vasta comunidade de luso-brasileira, possuidora de dupla nacionalidade. Será uma nova realidade.

Em resumo, a abertura mental, o bom senso, o respeito cívico e a pedagogia de parte a parte, é o caminho para a verdadeira integração e investimento mútuo. Aprendendo juntos, superando barreiras e construindo novos paradigmas, estamos a trilhar o caminho para uma convivência harmoniosa e enriquecedora. Este é o caminho que devemos seguir para um futuro melhor, onde a luso-brasilidade em Portugal seja verdadeiramente exemplar. ■

João Morgado

Presidente da Casa do Brasil – Terra de Cabral

7 de Setembro – Dia da Independência do Brasil

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