Moçambique: presidente de Quelimane esteve no Brasil a procura de ajuda para recuperar a cidade após ciclone “Freddy”

Manuel de Araújo relatou falta de água potável, famílias desabrigadas, déficit educacional e insegurança alimentar como consequências do desastre natural que atingiu o município em março

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Manuel de Araújo, presidente da Câmara Municipal de Quelimane, durante a FIN Brasil 2023
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O município de Quelimane, em Moçambique, ainda está a atravessar uma situação complicada após a passagem do ciclone Freddy. De acordo com o presidente da Câmara Municipal de Quelimane, Manuel de Araújo, a cidade enfrenta uma crise hídrica e sanitária, há escassez de água potável há cerca de duas semanas e, por conta disso, pessoas começaram a consumir água não potável, o que acarretou num surto de cólera.

“No dia 11 de março, a cidade de Quelimane foi o ponto de entrada do ciclone Freddy, que bateu o recorde de longevidade. O ciclone que mais tempo se manteve ativo. Teve uma entrada devastadora na minha cidade. Derrubou mais de 80% das árvores, mais de mil casas foram destruídas e muitas pessoas ficaram sem teto, sem abrigo. A minha cidade iniciou-se no pântano, ao lado do rio. Quando chove muito, há cheias. Nesse caso, tivemos um fenómeno que não ocorre muito. A água do mar invadiu os rios, tivemos cheias naturais de água doce e, algumas, com água do mar. Então, estamos há dias sem água potável. A cidade de Quelimane, como está num nível freático bastante alto, é difícil que tenha água que saia do solo. A água potável que abastece a cidade vem de cerca de 70 quilómetros. Então, o abastecimento está comprometido. Pode imaginar uma cidade com cerca de 400 mil pessoas sem água por 12 dias? Foi assim que surgiu o surto de cólera! As pessoas começaram a beber água não pura, não temos produtos químicos para purificar. Estamos a viver uma situação complicada”, disse Manuel de Araújo.

O desastre fez com que escolas fossem utilizadas como abrigo, situação que obrigou jovens e crianças a faltarem às aulas, o que causou impacto direto na educação.

Ajuda internacional

Enquanto o município de Quelimane trabalha para se reerguer, Manuel de Araújo cumpriu agenda de trabalho no Brasil, no final de março. De acordo com este responsável, Quelimane e Brasil “têm muito em comum”, já que, “quando a independência do Brasil foi declarada, o povo do Quelimane pediu para desligar-se de Portugal e fazer parte do Brasil”. Por ter um carnaval reconhecido como “o melhor de Moçambique, a pequena cidade também é conhecida como Pequeno Brasil”. A fim de fortalecer essa relação, Manuel de Araújo esteve em Florianópolis, em Santa Catarina, no Sul do Brasil, e marcou presença na Feira Internacional de Negócios (FIN), organizada pela Câmara de Comércio Brasil Portugal de Santa Catarina, em parceria com a Câmara de Comércio da Região das Beiras, entre os dias 28 e 29 de março, onde promoveu conexões para “ajudar Quelimane e Moçambique a superar a catástrofe”.

“Eu vejo como uma oportunidade que não podemos perder. Podia estar chorando na minha cidade, mas não ia adiantar. Precisamos da voz dos que choram para uma plataforma internacional, então, achei que a FIN Brasil seria uma boa oportunidade. Aliás, no dia da abertura, foi exibido um vídeo feito em Quelimane sobre o impacto do ciclone Freddy na minha cidade, o que cativou a atenção de bastantes pessoas, incluindo embaixadores, prefeitos do Brasil e de Portugal e muitos, a partir disso, começaram a lançar campanhas de apoio junto do empresariado e municípios das suas cidades. É uma oportunidade que não podemos perder. É melhor estar a lutar do que manter os braços cruzados”, afirmou Manuel de Araújo, que também contou que aproveitou a oportunidade para tratar de negócios que pudessem ajudar a desenvolver o Quelimane, mas também Moçambique.

A ideia foi conseguir parceiros para “buscar soluções para a insegurança alimentar que os cidadãos do município enfrentam, mas também buscar estratégias para atender as demandas educacionais e a falta de habitação”, o que, segundo este autarca, “afeta diretamente no desenvolvimento dos jovens”.

“Fui a Curitiba conhecer uma fábrica de fertilizantes, que quebra o paradigma do que é uma empresa desse segmento. Quelimane é capital de uma província, chamada província da Zambézia, que é a segunda maior em termos de dimensão geográfica e também de população. Tem cerca de seis milhões de habitantes. Tem esse nome, Zambézia, por conta do rio Zambézia que passa por lá. Portanto, Quelimane tem cerca de 400 mil habitantes. A província tem uma taxa de 52% de crianças malnutridas. É um choque saber que mais da metade das crianças da minha província estão malnutridas. Então, nós temos que achar uma solução para isso. 52% de crianças malnutridas traduz-se em metade dos jovens que, daqui a algum tempo, terão uma massa corporal que não pode competir no desporto e nem na área de saúde. Vai ficar deficitário, o próprio cérebro… Do ponto de vista intelectual, não vão poder competir. Uma geração comprometida e perdida. Acho que cada um de nós tem que fazer um esforço. São mais de 400 quilómetros de Florianópolis para Curitiba, eu fui, visitei a fábrica e fechamos um protocolo de cooperação. Primeiro, vamos poder importar esse produto, mas, também, a médio e longo prazo, queremos que uma unidade dessa fábrica seja implementada na província da Zambézia, em Quelimane. Outra parceria que fizemos é da construção de casas de baixo custo. Um dos grandes problemas da juventude é a falta de habitação, então, é possível, de material local e usando a madeira, construir habitações para juventude. São aspetos fundamentais que levamos para Quelimane”, concluiu Manuel de Araújo, que apurámos que assinou também um protocolo para tornar a sua cidade num local de apoio para que camionistas do Brasil possam morar na região e trabalhar no país. ∎

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