Havia um “quilombo” entre o palco e a escritora Conceição Evaristo durante o Flitabira

Quilombo Morro de Santo Antônio recebeu a visita da escritora afro-brasileira

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Conceição Evaristo em visita ao Quilombo Morro Santo Antônio (Foto: Kevem Willian)
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Na manhã da última quinta-feira, 2 de novembro, a escritora afro-brasileira Conceição Evaristo, que integra a programação do Festival Literário Internacional de Itabira (Flitabira), foi convidada pelo Quilombo Morro Santo Antônio, localizado na divisa entre Itabira e Santa Maria de Itabira, em Minas Gerais, para uma visita à comunidade quilombola.

Na chegada da escritora, a declaração de Dona Rosinha, uma das moradoras, deu o tom, de emoção e admiração deste encontro especial.

“Ao receber você aqui, Conceição, acho que meu coração voltou pro lugar dele”.

Evaristo receberá no Flitabira o Prémio Juca Pato de Intelectual do Ano, outorgado pela União Brasileira dos Escritores – UBE, neste sábado, dia 4 de novembro, a partir das 21h, após uma mesa ao lado da Ministra do STF Cármen Lúcia. E, nesta sexta (3), participa na mesa ao lado de Maria Ribeiro e Eliana Alves Cruz, às 21h.

Conceição Evaristo, conhecida por declarações e discursos marcadamente emocionantes,  chegou ao Quilombo Morro Santo Antônio querendo ouvir. A escritora mineira pediu para ouvir as histórias que aquela comunidade guardava, geração após geração. Claro, como uma boa conversa pede, Evaristo escutou muito e também disse muito, numa troca que, certamente, ficará guardada na memória daqueles que estavam presentes. Conceição destacou, especialmente, a importância da memória das mulheres mais velhas e sobre como aquilo que escuta é fundamental para aquilo o que escreve: “Na verdade, o escritor é um grande fofoqueiro. Eu sou fofoqueira, adoro ficar escutando histórias e depois inventar outras.”

O presidente da Associação do Quilombola Morro de Santo Antônio, Vinícius Sousa, declarou, no início da conversa, que o ideal do Quilombo hoje é fortalecer o caráter de união da comunidade. “Nosso grande desafio é fazer as pessoas entenderem o potencial que a gente tem juntos”.

Fabiano Piúba, Lívia Sant’Anna Vaz e Conceição Evaristo em visita ao Quilombo Morro Santo Antônio (Foto: Kevem Willian)

Conceição Evaristo fez uma emocionante leitura acerca da ideia de “Quilombo”.

“Pensar em quilombo não é só pensar naquele quilombo histórico que ficou pra trás, para onde as pessoas fugiam buscando refúgio. Hoje, mais do que nunca, a gente que ter esse espírito quilombola, esse espírito que vocês tem aqui”. A herança para as futuras gerações também foi destacada pela escritora: “Esse espírito quilombola tem que ser passado para as crianças. Esse cuidado com o outro, isso também nos ajuda a sobreviver”.

A ancestralidade esteve presente na fala da autora por diversos momentos, conectando sua própria experiência com aquela compartilhada por toda a comunidade presente: “Existe algo de ancestralidade que está em nós e a gente nem percebe. O próprio modo de viver tradicional nas aldeias africanas: ali a vida é coletiva, compartilhada. Nós, negros, aqui no Brasil, também temos muito disso. Apesar do que a história nos fez, apesar do que a escravização fez com a gente, nós ainda temos a capacidade de cuidar um do outro. Essa práxis quilombola existe e muitas vezes a gente nem percebe.”

Na sequência, diferentes mulheres integrantes do Quilombo Morro Santo Antônio tomaram a palavra, reconstruindo as muitas histórias que constituem aquela comunidade. Foi o caso de Vera, criada numa casa com mais dez irmãos. No lar, a união era a regra, conselho plantado e cultivado diariamente pelos pais. “Uma sociedade tem que continuar unida para vencer os obstáculos”. Dona Rosinha compartilhou sua história desde a infância, enquanto ainda morava em Belo Horizonte, no bairro Concórdia. “Naquela época, a gente só pensava em comer, porque não tinha comida”. Ao vir para Itabira, ela declarou nunca ter ido dormir um dia sequer pensando “Hoje eu estou com fome”.

Rosinha ainda partilhou com Conceição Evaristo e os demais presentes um tesouro. Apaixonada pela escrita, ela escreveu cartas e diários ao longo de décadas. Evaristo destacou a necessidade que os escritos de Rosinha, e tudo aquilo que eles guardam, de ganhar o mundo no formato de um livro. “Eu me comprometo aqui a escrever o prefácio do seu primeiro livro”. Num momento de muita emoção, a mulher leu uma de suas cartas, datada da década de 70. O papel dobrado e frágil, amarelado pelo tempo, guardava palavras dedicadas. Dona Rosinha começava a carta se intitulando “A derrotada”. Mas, no final, uma surpresa: finaliza a missiva com a assinatura “A vencedora”.

Conceição Evaristo presenteia a escritora Rosinha com um exemplar de seu livro “Olhos D’Água” (Foto: Kevem Willian)

No encontro com as histórias daquelas mulheres, Margot Abrahão, assessora de Conceição Evaristo, destacou: “As histórias que ouvi aqui se entrecruzam com as histórias da minha família”. Já a escritora, Promotora de Justiça do Ministério Público da Bahia, e uma das 100 pessoas de descendência africana mais influentes no mundo,  mais  uma convidada do Flitabira, Lívia Sant’Anna Vaz, declarou: “Estar aqui, ouvindo essas mulheres negras, é, para mim, um processo de cura”. Num arremate emocionante, ela completou: “Não existe democracia possível neste país que não passe pelas mãos das mulheres negras”. Também presente no encontro, Fabiano dos Santos Piúba, Secretário de Formação, Livro e Leitura do Ministério da Cultura, celebrou sua vinda para Itabira, a convite do Flitabira, mandando os cumprimentos da Ministra Margareth Menezes. Ele também citou a filosofia sul-africana Ubuntu: “Eu sou porque nós somos.”

Numa manhã repleta de momentos marcantes, Conceição Evaristo relembrou a dor de viver numa sociedade fundamentalmente racista. “A gente tem uma história que nos une pela dor, mas que também nos une pela resistência. A dor nos aniquila. Mas a gente encontra maneiras de vencê-la”. Ao falar sobre ações afirmativas, ela foi firme: “Qualquer política pública afirmativa não está nos privilegiando. Isso não é uma esmola. Nós construímos esse país. É o pobre que faz o Brasil andar. É nosso direito.”

Retomando a discussão acerca da ancestralidade, Conceição ainda concluiu: “A cada pessoa negra que se liberta hoje, nós também estamos libertando nossos antepassados”. Essa libertação pode vir, inclusive, através da literatura, como percebemos na história de Conceição Evaristo, de outras autoras convidadas do Flitabira e também da, torcemos, futura autora publicada, Dona Rosinha, do Quilombo Morro Santo Antônio: “Nós temos que nos apossar da escrita”. ■

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