Eduardo Miguel Rodrigues: o que faz este português no maior laboratório de Física de Partículas no mundo?

Integra a experiência LHCb (“LHC beauty experiment”) desde 2002

0
297
Eduardo Miguel Rodrigues atua pela Universidade de Liverpool e CERN
- Publicidade -

Tem 50 anos de idade, é cientista, faz investigação na área de Física de Partículas, também chamada Física de Altas Energias, geralmente designada em inglês por HEP (High Energy Physics), e integra a experiência LHCb (“LHC beauty experiment”) na Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (CERN), entidade localizada entre a Suíça e a França e que é conhecida mundialmente como o sítio onde foi inventado o World Wide Web (WWW). Falamos do português Eduardo Miguel Rodrigues, natural de Lisboa, mas que vive há 20 anos na região de Genebra, primeiro na cidade de Genebra e, desde há quase oito anos, em França, mesmo ao lado da fronteira. “Na realidade, a cinco minutos do CERN. Vivi também no Luxemburgo, Bélgica, Inglaterra, Alemanha e Suíça”, ressaltou.

Este responsável, que trabalha desde janeiro de 2020 para a Universidade de Liverpool, estudou até aos 13 anos de idade em Portugal, fez o resto dos estudos na Bélgica, inclusive a licenciatura em Física e um dos mestrados, “pois o outro foi em Coimbra”. Terminou os estudos com um doutoramento em Física experimental de Partículas em Inglaterra. “Facto engraçado e pouco usual, quer isto dizer que fiz as minhas três teses em três línguas diferentes”, frisou.

Em conversa com a nossa reportagem, este cidadão português, que conquistou reconhecimento internacional na sua área de estudos, recentemente com uma bolsa prémio, uma “CERN Scientific Associateship”, explicou as suas funções no CERN, destacou o papel desse organismo, frisou a importância de se valorizar a ciência e comentou o que o motivou a deixar Portugal e a apostar numa vida rodeada de culturas distintas.

Como explica o que é o CERN e qual a sua importância no contexto europeu?

O CERN é o maior laboratório de Física de Partículas no mundo. Na realidade, o seu programa inclui mais do que isso, com trabalhos de natureza mais aplicados, nomeadamente com relevância para a medicina (e.g. tomografia). É um dos dois na Europa. O CERN vai fazer 70 anos para o ano, tendo sido criado em 1954 como uma organização intergovernamental entre vários países com o nome “Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire”. A importância do CERN é enorme, não só no contexto europeu, mas também no contexto internacional, mais não seja dada a sua natureza. É um polo científico de primeira ordem, onde cientistas de todo o mundo colaboram pacífica e inclusivamente. Como laboratório, proporciona instalações e serviços para que vários tipos de experiências se possam realizar. As experiências são idealizadas e criadas em colaborações de muitas universidades e institutos de investigação. No caso da experiência LHCb, da qual sou membro, a colaboração é composta por cerca de 1500 pessoas, de quase 100 instituições (universidades e institutos de investigação) em 21 países. O CERN é conhecido mundialmente como o sítio onde foi inventado o World Wide Web (WWW), dado ao mundo gratuitamente, e que revolucionou por completo a nossa maneira de comunicar, entre outros. Engraçado é o facto desta ferramenta ter sido um “produto derivado” das atividades do laboratório para facilitar a partilha de documentos e a comunicação entre cientistas. É certamente uma das “aplicações” mais famosas e com maior impacto no dia-a-dia da humanidade. Além da sua evidente importância a nível científico, o CERN também é na prática um veículo de educação e treino em diversas áreas científicas e tecnológicas de ponta. Afinal de contas, a grande maioria dos estudantes, doutorandos e cientistas que passam pelo CERN acabam por fazer carreira fora da área de investigação, levando com eles todo o conhecimento e experiência adquiridos. Muitos até criam empresas na ponta da tecnologia. Outra componente que não convêm esquecer é a transferência de tecnologia em todas as áreas de trabalho do CERN – tecnologias biomédicas, aplicações no domínio aeroespacial, todos os ramos da engenharia, novas tecnologias, etc.

Onde está localizado o CERN?

O CERN abraça a França e a Suíça. Na realidade, o laboratório tem dois “sites” principais. O mais importante e maior situa-se na fronteira perto de Genebra, na pequena cidade de Meyrin, com entradas em ambos os países. Isto é, ao percorrer-se as estradas do laboratório passa-se de um país ao outro (não se pode é passar de um país para o outro pelo interior do CERN sem a autorização por via do cartão de acesso CERN). O segundo “site” é em França, a apenas uns quilómetros do “site” de Meyrin. Há também alguns outros “sites” nos arredores, nos locais de acesso às grandes experiências (sob terra até 100 metros no caso da experiência LHCb) e nos locais de acesso para manutenção do acelerador LHC.

O que essa Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear produz em termos de conhecimento?

A produção do CERN “é um mundo em si”. Nem sei por onde começar… Em primeiro lugar, há a produção científica, obviamente, publicada em revistas especializadas. Convém recordar a descoberta do bosão de Higgs ou de pentaquarks nos últimos anos… Tudo isto é complementado com avanços tecnológicos. Sem falar no que diz respeito à educação e treino, como já mencionado, e toda a tecnologia derivada de colaborações com a indústria para o fabrico de muitas peças especiais. E a WWW, claro.

Que funções desempenha no CERN?

Eu não desempenho funções no CERN de um ponto de vista estrito. O CERN, como laboratório internacional, proporciona instalações, serviços, etc., à comunidade, e é o local onde grandes colaborações internacionais preparam, têm e correm as suas experiências. Todos os membros dessas colaborações formam os utilizadores do CERN (“CERN users”). Trabalho desde janeiro de 2020 para a Universidade de Liverpool e tenho neste momento uma prestigiosa “CERN Scientific Associateship”.

Em que projetos está envolvido neste momento no CERN?

Faço parte da experiência LHCb (“LHC beauty experiment”) desde 2002 quando, tendo acabado o doutoramento, ganhei uma bolsa Marie Curie da União Europeia para vir trabalhar no CERN por dois anos. Acabei por ficar desde então. Tenho tido contratos de emprego com universidades inglesas, holandesas e uma americana. Mas grande parte da minha carreira foi a trabalhar para universidades inglesas. No entanto, apesar dos vários contratos, trabalhei sempre no âmbito de LHCb. A página pública de LHCb é https://lhcb-outreach.web.cern.ch/. Trata-se duma experiência – falando concretamente, do detetor de partículas – idealizada para estudar fenómenos que poderão eventualmente explicar os processos que permitiram o desaparecimento da antimatéria formada ao mesmo tempo que a matéria produzida aquando do Big Bang – vivemos num universo de matéria. Por exemplo, o LHCb permite o estudo com grande precisão de assimetrias de comportamento entre certas partículas e as antipartículas correspondentes, assimetrias sem as quais não nos parece ser possível a antimatéria ter desaparecido apenas um segundo após o Big Bang. No decorrer dos cerca de 20 anos de LHCb, o programa de Física tem vindo a evoluir e expandir consideravelmente, pelo que hoje nos organizamos em quase dez grupos de trabalho de análise. Em LHCb, tenho tido uma série de atividades de investigação: análise física, algoritmos e software de reconstrução e análise, trabalho relacionado com detetores, etc. Neste momento, sou chefe de projeto para “Data Processing & Analysis” (DPA), um projeto responsável nomeadamente pelo software de análise e o quadro de processamento “offline” dos dados para LHCb. O LHCb está organizado em aproximadamente uma dúzia de projetos, pelo que é um cargo importante numa colaboração com cerca de 1500 membros. Tenho trabalhado desde sempre (isto é pós-doutoramento) em LHCb, embora tenha também outros projetos comunitários em software, que não têm relação direta com o CERN, mas que envolvem e são de interesse para a comunidade do CERN: comecei Scikit-HEP (https://scikit-hep.org/) em 2016 e sou membro do grupo de coordenação da HSF, a fundação de software para Física de Partículas (HEP Software Foundation) (https://hepsoftwarefoundation.org/). Criei, aliás, no âmbito da HSF, um grupo de trabalho que organiza há cinco anos uma conferência com grande sucesso – as conferências PyHEP (ver em https://hepsoftwarefoundation.org/workinggroups/pyhep.html).

Há quanto tempo está na entidade?

Como frisei acima, cheguei em junho de 2002 a Genebra e ao CERN, como bolseiro. Sou membro de LHCb também desde 2002. Tive vários cargos de responsabilidade em LHCb e sou chefe do projeto DPA desde 2020, data em que o projeto foi na realidade criado.

Há outros portugueses no CERN?

Se me lembro bem, há cerca de 200 portugueses no CERN, o que é um número para honrar, dado o tamanho relativo do país. A maior parte são engenheiros (nos vários ramos de relevância) e informáticos. Mas também há um certo número de cientistas, quer a trabalhar para o CERN mesmo, quer a trabalhar para universidades ou instituições portuguesas de investigação, quer a trabalhar como eu para universidades estrangeiras.

Como enxerga o seu trabalho no CERN e qual a relevância de se ter um cidadão português nessas funções?

A cidadania dos colaboradores não tem importância per se. Somos todos colegas no âmbito duma colaboração (e.g. experiência). No que respeita ao LHCb, somos muito poucos portugueses já que Portugal não é membro da colaboração. De certa forma, torna-se interessante ser-se “minoria”, e acabamos por representar o país através das nossas contribuições. Pessoalmente, sempre achei extremamente interessante trabalhar em ambientes internacionais, com grande mistura de culturas e formas de trabalhar.

Há quanto tempo deixou Portugal e quais foram as razões?

Deixei Portugal em 1985, portanto, com 13 anos. Fomos (tenho um irmão gémeo que vive e trabalha no Luxemburgo) com a nossa mãe para o Luxemburgo porque ela tinha tido uma proposta de trabalho que não se recusa. Foi o começo das andanças… Considero-me um verdadeiro europeu pela vida que tenho vindo a ter pessoal e profissionalmente numa meia dúzia de países.

Como é viver fora de Portugal?

Como pode imaginar, estou mais do que habituado. É o meu dia-a-dia desde adolescente. Um ditado francês diz que a relva é sempre mais verde noutro sítio. Talvez. Com o tempo acabei por verificar que há coisas boas, e más, em todos os países. O melhor é focalizarmo-nos no que de mais positivo há onde vivemos. Gosto muito da região onde vivo e da Suíça em geral, com montanhas e lagos um pouco por toda a parte, a distâncias que permitem ida e vinda num só dia.

Quais as suas expetativas profissionais e pessoais atualmente?

Neste momento, enquanto chefe de projeto (o projeto DPA), tenho como objetivo a “entrega” a tempo do sistema que nos propusemos criar para o bom decorrer da tomada de dados com o novo detetor LHCb (“upgraded detector”). Estou ansioso por ver em prática, com sucesso, o que toda a equipa tem vindo a preparar nestes últimos três anos. A nível pessoal, sempre tive a família em prioridade e orgulho-me muito, em particular, de poder proporcionar atividades em todo o género à minha filha (oito anos e meio) e partilhá-las com ela.

Como explica para os portugueses e lusodescendentes o seu trabalho no CERN?

Tenho tido algumas oportunidades de falar com portugueses e lusodescendentes sobre o meu trabalho, embora o tenha feito mais com estrangeiros, o que é normal dado o ambiente internacional em que estou inserido. Confesso que não faço distinção na minha maneira de abordar as pessoas, a não ser o facto de adaptar o falar para adultos com mais ou menos conhecimento do assunto, ou crianças, claro.

Acredita que a Ciência está a ser devidamente valorizada?

Penso que já não o é há muito tempo. A culpa é provavelmente de toda a sociedade. Os cientistas muitas vezes não sabem valorizar eles próprios o que fazem e/ou fazer compreender ao público em geral o quanto importante a ciência sempre foi, é e continuará a ser – vivemos cada vez mais num mundo técnico, por isso, regido no fundo por matemática e ciência tecnológica. Verdade que a vulgarização não é fácil de fazer nem algo de inato… Por outro lado, o público em geral não se interessa espontaneamente; é preciso um empurrãozinho nas costas. O facto de muitos programas sobre ciência só passarem na televisão tarde, à noite, depois de toda a programação em hora de grande audiência, também só contribui para o sentimento de que tais programas são de menor interesse. Sem falar nos comentários que já as crianças ouvem de que a ciência é difícil, etc…. Haveria muito que dizer sobre o assunto da valorização, nomeadamente a Educação, que deixa muito a desejar presentemente… O que é certo é o valor da ciência. Para quem gosta de quantificar, sugiro, por exemplo, o relatório da Sociedade Europeia de Física sobre o impacto económico da Física – fala por si.

Quais os principais pontos do seu currículo?

Desde 2020, chefe de projeto em LHCb para “Data Processing & Analysis” (DPA), o projeto responsável nomeadamente pelo software de análise e o quadro de processamento “offline” dos dados (offline = fase que segue a da aquisição de dados); Antes, ainda em LHCb, tive ao longo dos anos uma série de postos de liderança/responsabilidade em aspetos vários como análise, software, detetor de vértices; Fundador da série de conferências PyHEP, “Python in HEP”, anuais desde 2018 (Python é a linguagem de programação mais popular hoje em dia); Fundador do projeto Scikit-HEP em 2016: trata-se de um projeto para um ecossistema “Big Data” de análise em Python para Física de Partículas; Membro de vários comités internacionais organizadores de conferências; Tenho mais de 700 publicações a meu nome, a maior parte são publicações da colaboração LHCb; Dei mais de 70 apresentações em conferências ou sobre forma de seminários.

Que mensagem deixa para os jovens portugueses que procuram alcançar esse seu mesmo patamar profissional?

De certa forma, há que pensar no que se quer fazer e ir para a frente. Em suma, seguir o provérbio: “se outros conseguem, porque não eu?”. O percurso é longo, certo, mas “quem corre por gosto não cansa”. Em termos mais práticos, convém informar-se relativamente cedo das possibilidades que hoje existem, por exemplo, em termos de estágios de verão, que permitem um primeiro contacto com o laboratório. Também é importante, um pouco como para tudo, saber quais as vias mais diretas a tomar para a carreira pretendida – por exemplo, Física ou Engenharia. ∎

- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui