Cortejo africano e palestra sobre fome ancestral marcaram “arranque” do 12º Fliaraxá

Abertura do evento focou em temas sensíveis com grandes nomes do Festival

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“fome ancestral diz respeito a uma herança de injustiças sociais que se perpetua por gerações, tendo origens históricas”
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A décima segunda edição do Festival Literário Internacional de Araxá – o Fliaraxá, que decorre no estado brasileiro de Minas Gerais, teve início na noite do dia 19 de junho, com diversas atrações, como o tradicional corte de fita, simbolizando a abertura de portas, neste caso, do pátio da Fundação Cultural Calmon Barreto e um cortejo do congado Moçambique Rainha, que utilizou danças homenageando santos do catolicismo a partir das tradições de religiões de matrizes africanas, numa performance religiosamente sincrética que deu as boas vindas ao público araxaense, conduzindo os participantes ao pórtico de entrada do Festival até o Auditório 2, onde Afonso Borges, Sérgio Abranches e Tom Farias, curadores das programações nacional e internacional do Fliaraxá, falaram a respeito do evento.

Afonso Borges, curador e idealizador do Fliaraxá, realiza há 12 anos o Festival na cidade mineira. Este ano, celebrou a oportunidade de trazer, mais uma vez, os encontros da literatura a Araxá. Complementando a fala de Borges, Sérgio Abranches afirmou que esta é a edição mais igualitária da história do Fliaraxá: a programação conta com números iguais de autores no que tange às diferenças de género e raça. Tom Farias, por sua vez, celebrou a performance do congado Moçambique Rainha e em seguida abriu espaço para que a primeira roda de conversa do 12.º Fliaraxá fosse iniciada.

Em palco estiveram Hugo Monteiro Ferreira, especialista em Neuropsicologia e em Psicologia Cognitivo-Comportamental e pesquisador na área de saúde mental de crianças, adolescentes e jovens; Trudruá Dorrico, escritora, artista, palestrante e pesquisadora de literatura indígena; e Estevão Ribeiro, escritor, jornalista gráfico, roteirista de histórias em quadrinhos e audiovisual. Juntos, falaram sobre a temática da “fome ancestral” – cada um conforme as suas próprias vivências. Esse tema foi elaborado por Estevão, que o apresenta nos seus trabalhos.

Segundo apurámos, a questão da fome ancestral diz respeito a uma herança de injustiças sociais que se perpetua por gerações, tendo origens históricas – cada uma de acordo com o seu recorte. Trudruá Dorrico falou sobre como a literatura indígena foi responsável por saciar sua fome identitária, Estevão Ribeiro sobre como as suas conquistas económicas o permitiram consumir alimentos que não tinha condições de comprar quando era criança e Hugo sobre como a sua tristeza inexplicável da infância o deu o alimento necessário para atuar profissionalmente nos dias atuais, pontos que giraram em torno da valorização das crianças e dos jovens, considerando que cada um dispõe das suas próprias experiências, que acarretam em diferentes construções de mundo.

Além disso, o debate em torno da fome ancestral reforçou um dos pontos defendidos pela identidade do Fliaraxá, representada na mostra “Retorno”, do artista gráfico Gia Tristão. A exposição apresenta os símbolos do Adinkra, ideogramas referentes a elementos da natureza e, portanto, símbolos carregados de significado – incluindo o mais conhecido, o Sankofa, que representa a força da memória e da ancestralidade, reforçando a questão patrimonial, tão exaltada no Fliaraxá. Quanto a isso, Trudruá afirma que, mesmo vilipendiadas, recortadas e alteradas, as literaturas de origem ainda carregam em si suas essências, suas raízes e suas ancestralidades.

A partir da fala de Trudruá Dorrico, Hugo Monteiro Ferreira complementou que as histórias da infância e da adolescência são, muitas vezes, silenciadas, e que suas experiências não são ouvidas. Tendo vivido, o próprio autor, a angústia em sua juventude, seu trabalho é, como descreve, “uma tentativa constante de proteger crianças e adolescentes do que viveu”, e ainda complementa que escreve “para não morrer”.

Por fim, Hugo reforçou um pedido que fez repetidas vezes: que a sociedade escute atentamente o que crianças e adolescentes têm a dizer.

Por se tratar de um assunto delicado, Estevão Ribeiro teve a sensibilidade de espairecer a plateia antes que a palestra se encerrasse. Após uma pequena parlenda comandada por Hugo, Estevão performou Madalena do Jucu, canção de Martinho da Vila, no reco-reco, enquanto Tino Freitas, autor da programação do 12.º Fliaraxá, tocou, da plateia, uma pandeirola.

O público acompanhou, cantando, a finalização de uma mesa que foi prenunciada, também, por uma performance. ■

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