Brasil, Cuba e Portugal estiveram juntos no palco do Fliaraxá

Afonso Cruz abriu sua fala a partir de uma de suas obras mais conhecidas, “Vamos comprar um poeta”

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12º edição do Festival Literário Internacional de Araxá – Fliaraxá decorreu na Fundação Calmon Barreto, entre os dias 19 e 23 de junho, no estado brasileiro de Minas Gerais
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Encerrando a programação desta quinta-feira, dia 19 de junho, no 12.º Fliaraxá, três países e três autores ocuparam o palco do Auditório 2: Brasil, Cuba e Portugal. Numa conversa que ultrapassou fronteiras — tanto das nações quanto da própria literatura — Eliana Alves Cruz, Teresa Cárdenas e Afonso Cruz embarcaram numa conversa instigante sobre processo criativo, ancestralidade e alteridade.

Afonso Cruz abriu sua fala a partir de uma de suas obras mais conhecidas, “Vamos comprar um poeta”. A narrativa discute a mercantilização da arte: numa realidade em que o materialismo e o consumo parecem dominar todas as relações — até as de afeto — uma garotinha dirige aos pais a afirmação do título. No livro, assim, o poeta vira uma espécie de mercadoria. Sobre a natureza distópica do livro, Afonso comentou: “A arte não visa ao lucro, não é uma ferramenta para o lucro. Ainda que tenha, como consequência, o lucro”.

Logo em seguida, Eliana se dirigiu à Teresa Cárdenas: “Na tua obra, onde está a pitada de revolução necessária ao artista?” Teresa comentou sobre o protagonismo que busca dar para personagens negras neste seu trabalho tão singular, em livros como “Cartas para a minha mãe” e “Cachorro velho”. “Uma das minhas motivações tem sido trazer para os livros a presença negra. Uma presença invisibilizada também em Cuba.”

A partir da fala de Teresa sobre sua terra de origem, Eliana provocou Afonso Cruz a também falar sobre a sua relação com o seu país, Portugal. Ele comentou sobre o fato de não costumar escrever sobre Portugal, escrevendo sobre territórios não localizados ou outros países que não o lusitano em seus livros mais recentes, como Cochinchina, Berlim e Chile. “Na literatura, percebemos emoções que são comuns à humanidade, não apenas ao indivíduo. A literatura é um exercício de alteridade, uma maneira de nos colocar no lugar dos outros.”

Teresa Cárdenas está no Brasil desde o último ano, viajando regularmente para Cuba. Assim, Eliana a questionou sobre o processo criativo a partir dessa distância. A escritora cubana comentou sobre a ideia que tinha de que não seria possível escrever longe de sua terra. Mas descobriu, nessa experiência, o contrário: “Descobri que a literatura é algo que vai comigo, que está dentro de mim. É algo que me salva. Eu sou nascida no mundo. Não importa onde eu esteja, a literatura está comigo”. Teresa ainda falou sobre a noção de cura que encontra no trabalho da escrita e na literatura. “Tenho que seguir com essa palavra perene, que me alimenta. A literatura é como um casaco, é algo que me abriga.” Na conclusão, Cárdenas fez uma tocante declaração de amor: “Eu agradeço muito a literatura. Ela foi onde eu estava e me salvou. Eu e a literatura somos amantes”.

Em diálogo com Eliana, Teresa comentou sobre a ancestralidade e a literatura escrita por mulheres negras. “A memória é poderosa. Ela te faz escrever sobre coisas que você não experimentou.” Eliana destacou: “Especialmente para nós, mulheres negras, essa vida de escrita era algo muito distante”.

Se aproximando do fim da conversa, Eliana direcionou uma pergunta para os dois parceiros de mesa: “Para quem vocês escrevem?” Afonso Cruz destacou que essa não é uma resposta muito simples. “Eu escrevo para os outros, senão não publicava. (…) Sim, eu quero chegar ao máximo de pessoas possível, mas não pretendo adaptar meu discurso pelo desejo de um público. Por isso, quando penso no meu público, não penso como uma multidão, penso como um amigo.” Na sequência, Teresa declarou não saber fazer outra coisa que não escrever: “Escrevo porque posso, escrevo porque preciso e escrevo porque as outras pessoas também precisam. Tenho muitas experiências de leitores que me dizem: ‘Você escreveu para mim’”. ■

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